Fiz o meu primeiro “3000”: subi ao Pic du Taillon nos Pirenéus!

Há algumas semanas fiz o meu primeiro “3000”. Diz- se fazer “2000”,” 3000″, etc. quando conseguimos chegar a um cume cuja altitude entra dentro dessa faixa numérica, por assim dizer. Subi ao Pic du TailIon, um dos muitos “3000” da cordilheira dos Pirenéus. Dizem que é um dos mais fáceis, mas só eu sei o quanto me custou chegar lá! Demorei 1 hora e meia para fazer 1 km que representou o ataque final ao cume. Para trás ficaram cerca de 6 km sempre a subir, com um desnível total de cerca de 1000m, dos 2208 m de altitude aos 3144 m.

As condições meteorológicas estavam perfeitas, o vento não soprava, a temperatura era amena e o sol deu-me algum descanso nos momentos em que se escondeu atrás das nuvens que não eram muitas. Mesmo assim, foi o trilho mais exigente que já fiz, não pela sua extensão mas pelo desnível acentuado e pelo terreno de pedras soltas.

Tudo começa em Col de Tents a 2208 m de altitude, muito perto de Gavarnie em França, onde existe um pequeno parque de estacionamento. O Pic du Taillon fica mesmo em frente ao Col de Tents, mas para lá chegar é preciso “rodeá -lo”. Não há que enganar, pois a partir dali não há mais para onde ir a não ser a pé. 

Ao início o percurso começa plano até ao Port de Boucharo, a partir daí o caminho passa a ser só pedra e é praticamente sempre a subir até ao cume. Mas antes ainda há que passar pelo riacho inclinado. Aqui mais vale demorar o tempo que for necessário até se encontrar o melhor caminho para atravessar sem pisar as rochas escorregadias. Mete medo olhar para baixo e saber que um pequeno erro pode ser um grande problema.

Mais à frente está o Col des Sarradets onde podemos finalmente vislumbrar o topo do Cirque de Gavarnie. Por esta hora já vou a meio caminho da subida e antes de chegar à magnífica Brèche de Roland (que já se vê ao longe), há um refúgio. É o refúgio des Serradets ou da Brèche de Roland, onde água potável para reabastecer as garrafas, uma cadeira para sentar e uma casa de banho sem fundo se tornam o hotel de luxo que qualquer um almeja encontrar no meio das rudes e impiedosas montanhas que me rodeavam.

Pensar em desistir

A partir daqui o caminho complica-se ainda mais, pois a inclinação torna-se ainda mais acentuada. Alguns metros mais acima (tão perto e tão longe!), mais uma paragem: a imponente Brèche de Roland. Do lado de lá Espanha, do lado de cá França. Alguns montanheiros ficam por ali, para eles já chega.

Não fosse uma força da companhia, também eu ficava por ali, já arranjando desculpas para começar a descer em vez de continuar até ao objetivo. É tão fácil pensar em desistir! Um tipo comentava em espanhol: “para mim já chega, até ao Taillon ainda é mais uma hora e meia”. Consultei o GPS depois desta informação que apanhei no ar, para confirmar que distância faltava até lá porque sabia que não estava longe. 1 km. 1 hora e meia para fazer 1 km? Isto vai ser fácil, pensei eu ironicamente. A verdade é que, mesmo tentando encontrar desculpas, tinha chegado ali para subir ao cume e depois de terminada a sande de ovo cozido, era hora de continuar. 

Se eu achava que a subida até ali tinha sido extenuante, foi porque não sabia o que tinha pela frente. Parecia que as minhas pernas pesavam 100 kgs cada uma e tentava transferir esse peso para os braços apoiando-me no bastão. Mas lá fui, ao meu ritmo, pensando “vamos, vamos” tentando contrariar a vontade de parar para descansar a cada passo que dava.

No topo do Taillon

Eram 12:34. Que maravilhosa vista, ao redor todos os cumes estavam mais abaixo, sentia-me no topo do mundo (ahah!). Não vou gastar palavras para descrever o que vi porque as imagens falam por si. A primeira coisa que fiz foi sentar-me e tirar as botas. Que alívio! Comi o meu almoço (mais uma sande de ovo), bebi água, tomei o meu café e só depois tirei algum tempo para apreciar e tirar fotos. Lá de cima conseguia ver o Col de Tents onde tinha deixado o carro, um aglomerado de pontinhos brilhantes, lá ao longe. Aos poucos iam chegando mais pessoas enquanto outras iam partindo. Todos tínhamos conseguido chegar ao Pic du Taillon!

Sempre a descer

Mas a dificuldade não se ficou pela subida. As pequenas pedras soltas rolavam montanha abaixo como mini-avalanches. Volta e meia enterrava as botas nas pedras e deslizava por ali abaixo. Ainda caí umas duas vezes (eu e outros!) mas sem perigo, felizmente. De volta à Brèche de Roland continuei a descer até ao refúgio para descansar mais um pouco. Depois foi quase sempre a andar sem parar, atravessando novamente o riacho, tentando não pôr os pés em nenhuma pedra molhada para não ir por ali abaixo. 

Nestas coisas, mais importante que chegar ao cume é regressar em segurança. E assim foi, passado quase 9 horas e mais de 15 kms, cheguei ao carro sã e salva, olhando para o cume que tinha, orgulhosamente, acabado de fazer.

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2 comentários

  1. Parabéns, Sandra! Senti um leve desespero só de ler teu relato. Tenho zero coragem de me meter numa aventura dessas. A única trilha que fiz (e nem sei se é considerada uma trilha) foi em San Juan Les Pins, na Riviera Francesa. Fiquei bem cansada e com um pouco de medo em uns trechos que eram muito estreitos, com parede de pedra de um lado e mar do outro. Por essa experiência, sei que não tenho coragem de fazer uma trilha de 3000m e admiro a tua coragem. Um grande beijo!

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