Quando disse adeus à minha antiga profissão

Já lá vão uns três anos desde que me sinto completamente infeliz com o meu trabalho. Comecei a trabalhar como assistente comercial na área das telecomunicações uns meses depois de acabar o curso, depois de ver que estava muito difícil de encontrar algo na minha área. Com a pressa de ser independente e de ter o meu rendimento, acabei por deixar os anos passar e nunca mais procurei nada naquilo em que me tinha formado.

 

Os primeiros anos.

No início até gostava do trabalho que desempenhava apesar de ter de fazer cerca de 80 kms todos os dias para chegar ao trabalho. Comecei por ir de comboio mas isso implicava apanhar um autocarro, o comboio e outro autocarro novamente e acabava por demorar cerca de 2 horas a chegar, por isso a certa altura acabei por passar a ir de carro.

Trabalhei nesse sítio durante um ano e meio e a recibos verdes. Saía muitas vezes tarde e tinha muito trabalho mas tinha prémios de produtividade o de certa forma acabava por compensar o esforço. Depois encontrei emprego noutra empresa a fazer o mesmo, desta vez com um contrato de trabalho temporário e cerca de 20 kms mais perto de casa.

Nos primeiros 2/3 anos as coisas até correram bem e entretanto passei a efetiva. Mas a certa altura comecei a aperceber-me de algumas coisas que não me agradavam (que não vale a pena especificar) e atitudes que ao início conseguia tolerar, começavam a tornar-se insuportáveis, no entanto fui deixando andar até que em 2014/2015 atingi o meu limite. O que no início até era algo que eu gostava de fazer, depressa se tornou num enorme tormento, tanto que vi grande parte dos meus colegas ir embora, até que fiquei apenas eu e o meu chefe naquele escritório. Era um suplício ir trabalhar e às 11h já estava à espera que o dia acabasse.

Durante cerca de 2 anos dizia todos os dias que tinha de sair dali urgentemente mas não fazia nada para que isso acontecesse. Estava num ponto em que qualquer coisa que me dissessem era motivo para eu ferver e ficar completamente irritada, tudo me causava tédio e tudo me enervava, além disso o trabalho era sempre igual e não tinha qualquer perspetiva de carreira ou evolução, afinal em 7 anos nada tinha mudado. No fim do dia saía do trabalho completamente desgostosa e numa pilha de nervos. Sentia-me desaproveitada e inútil e com a consciência de que tinha capacidade para mais. Não sabia o que fazer porque não podia ficar sem rendimento e pior ainda, eu não queria mais fazer aquilo que fazia em mais lado nenhum, tinha urgentemente de mudar de profissão e de área, não queria ter mais que ouvir aquelas pessoas nem queria mais relacionar-me com o negócio das telecomunicações.

 

7 anos depois.

Nessa altura comecei a pensar que tinha mesmo de arranjar uma solução e sabia que muito provavelmente isso implicaria investir na minha carreira e tirar um curso, pois com a licenciatura tirada há 7 anos não devia ir muito longe. Equacionei tirar outra licenciatura ou o mestrado, andei a ver cursos e a analisar a empregabilidade de alguns deles mas ao constatar o preço das propinas acabei por desistir e voltei a aguentar. Entretanto soube que uma colega com quem tinha trabalhado também tinha mudado de área, e depois de arranjar outro emprego confidenciou-me que nunca mais iria voltar à sua antiga profissão, e como eu a compreendia!

Mas os meses foram passando e eu lá me fui arrastando sem nunca tirar da cabeça que tinha de ter mais algum tipo de formação e que era aí que a minha hipótese de sair dali residia. Em 2016 criei este blog e comecei a inteirar-me de alguns conceitos que até então só tinha ouvido falar por alto e outros que simplesmente desconhecia. Então no final desse ano decidi que me iria formar em Marketing Digital, analisei vários cursos e escolas mas os preços eram muito acima daquilo que eu esperava pagar, isto é, mais de 2000€. Eu queria muito tirar o curso mas era tanto dinheiro… e depois? E se não arranjava nada? E se tirava o curso “para nada”? E se depois o dinheiro fazia falta? Além disso não me deixava muito confortável fazer um investimento desta dimensão em mim, sendo o dinheiro dos dois (meu e do Tiago). Mas felizmente o Tiago sempre me apoiou, via como eu chegava do trabalho e também sabia que eu tinha mesmo de mudar.

Então um dia, durante a minha incansável procura de algo novo para fazer decidi que tinha mesmo de aprender alguma coisa que gostasse e para a qual achasse que tinha habilidade, não havia outra hipótese. Então liguei para uma escola com o intuito de me inscrever no tal curso de Marketing Digital, visto que inclusivamente estava com uma redução de preço, por já só existirem algumas vagas. Mas antes pensei outra vez: “é tanto dinheiro…e se isto corre mal?”, no entanto liguei na mesma só que as vagas já tinham sido todas preenchidas e só voltariam a abrir o curso dali a uns meses. Isto significou duas coisas para mim: um alívio e uma desilusão, um alívio porque pensei “estás maluca, ias gastar esse dinheiro todo assim?!” e uma desilusão pois isso iria significar ficar mais uma data de meses no mesmo inferno diário.

 

O início do fim.

Alguns meses se passaram, novas vagas abriram e eu inscrevi-me finalmente no curso profissional de Marketing Digital da FLAG no Porto. Sabia que não iria ser fácil: trabalhar e estudar ao mesmo tempo requereria um esforço acrescido, iria ter aulas depois do trabalho e aos sábados, durante cerca de 8 meses. Iriam ainda existir trabalhos para apresentar e coisas para estudar, mas não seria por falta de esforço da minha parte nesse sentido que algo correria mal, era mesmo só o esforço financeiro que me preocupava, no entanto voltei a pensar que se isto me permitisse mudar, o investimento teria o seu retorno rapidamente e que a sanidade mental não tem preço.

Comecei o curso em abril e terminei em dezembro com 17 valores. Tive colegas e formadores fantásticos e aprendi imensas coisas. Em agosto decidi que estava na altura de dizer ao meu chefe que não queria mais trabalhar ali e concordámos em cessar o meu contrato. Estava efetiva e trabalhava ali há 7 anos mas em novembro de 2017 o meu martírio acabou finalmente. Nesse mesmo mês fui a duas entrevistas e mesmo antes de terminar o curso já tinha um novo emprego no departamento de Marketing e Comunicação de uma multinacional. Sempre tive tendência em me desvalorizar e de achar que não era capaz, mesmo ouvindo dos que me rodeavam que tinha capacidade para muito mais do que fazer um trabalho sempre igual, sem qualquer perspetiva de futuro.

 

Aprender tudo de novo.

No início foi muito difícil. Eu trabalhava num escritório onde só havia 2 pessoas (eu e o meu chefe) e passei para uma empresa onde trabalham mais de 7000. Nunca fui muito conversadora nem de grandes socializações com quem não conheço e agora via-me rodeada de pessoas com quem iria ter de falar e trabalhar. Pior ainda, eu não tinha experiência! Uma nova carreira, uma nova empresa, aprender tudo de novo, foi o que tive de fazer. Sou muito grata por ter tido a oportunidade de mudar. Tenho colegas fantásticos, aprendo coisas novas todos os dias e os desafios diários fazem com que monotonia e estagnação não façam mais parte do meu quotidiano, por isso estou feliz assim, finalmente. 

Existem poucas coisas piores que detestar aquilo que se faz. Um desgaste emocional que corrói dia após dia e que um dia acaba por dar cabo de nós. No meu entendimento aquilo a que chamamos “trabalho” deve ser encarado como algo que complementa e engrandece o nosso quotidiano e não como uma obrigação enfadonha, vista unicamente como uma forma de obtenção de rendimento. No final da sua vida profissional a maior parte das pessoas olha para trás e não valoriza o tempo passado no trabalho, mas eu penso que é um tempo demasiado precioso para poder ser desperdiçado com coisas que não gostamos.

 

Nunca é tarde.

Se reparares, a primeira frase deste artigo está no presente e é um lamento pois comecei a escrever este texto ainda no meu antigo trabalho mas acabo-o agora já no novo, no qual estou há mais de um ano. Isto é um desabafo e ao mesmo tempo uma partilha de uma experiência que até teve um final bastante feliz, apesar de todos os medos e resistências.

Este artigo não tem nada a ver com a temática do blog e pensei bastante antes de o publicar mas achei que podia e deveria partilhá-lo contigo, pois quem sabe não passaste ou estás em vias de passar pelo mesmo. Bem sei que estas coisas nem sempre correm bem, mas se não fizermos nada é também certo nada vai acontecer e nem sequer vamos poder dizer que ao menos tentámos. Por isso, por favor, não baixes os braços e esgota todas as possibilidades de fazer alguma coisa por ti, um dia vais agradecer-te.

Já dizia Freud:

“Quando a dor de não viver é maior que o medo da mudança, a pessoa muda.”

 

6 comentários

  1. Gostei imenso de ler este post. Não posso dizer que passei exactamente pelo mesmo, mas tb tive de arranjar coragem para desligar e começar de novo ao mudar de país (para o outro lado do mundo literalmente), mesmo indo trabalhar para a mesma área. O desafio existe e não há um dia que eu olhe para trás e esteja arrependida! Já os antigos diziam “Quem muda Deus ajuda”! 🙂

      1. Me identifiquei demais com seu texto porque entendo exatamente o que você sentia no antigo emprego. Concordo 100% com essa parte: “mas eu penso que é um tempo demasiado precioso para poder ser desperdiçado com coisas que não gostamos”. Adorei que você compartilhou sua experiência. Há pouco tempo, eu estava pesquisando sobre marketing digital. Tenho vontade de fazer tantas coisas, mas preciso focar em apenas uma e não consigo decidir qual haha uma hora eu encontro a luz. Abraços!

        1. Olá Alê! De facto às vezes não é fácil encontrarmos o nosso caminho principalmente quando temos vários interesses, é preciso pensar muito e tomar uma decisão. Espero que encontres a tua resposta em breve! Beijinhos!

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